terça-feira, 4 de novembro de 2025

Fim do mundo

 O fim do mundo não chega com explosões, nem com trombetas

Ele vem silencioso, rastejando pelas sombras do coração
Começa nas pequenas desistências. Um sorriso que se desfaz antes de florescer, uma palavra que morre no silêncio, um cansaço que se infiltra nos ossos, se confunde com rotina até tornar-se prisão.


E, quando percebemos, o universo interior já colapsou, enquanto lá fora o sol insiste em nascer, implacável, como se nada tivesse mudado

Eu tentei esconder esse colapso, me esconder.
Disfarcei o medo com risadas cortantes, a exaustão com noites viradas, a dor com bravata e bravura.
Fingir normalidade virou máscara, uma fachada que varre o entulho da alma para debaixo do tapete, esperando que ninguém perceba o vazio. Mas a alma não é chão, ela grita, ela geme, ela implora por socorro que eu nunca soube escutar.

Este é o relato do desabamento, um registro de como fui arrastado pela força da minha própria sombra, obrigado a reconstruir o que nunca quis que fosse destruído.

Vic, meu amor, meu porto, minha verdade.
Foste o único que permaneceu quando tudo desmoronou, o espelho onde via a parte de mim que ainda tinha esperança. Te falhei mais vezes do que posso contar, tentando proteger o que não podia ser salvo, carregando sombras pra dentro da tua luz. Mas tu não desistiu.
E talvez amar também seja aprender a deixar alguém descansar das tempestades que carregamos. Se há paz em mim hoje, é porque um dia tu me ensinaste o que é calma, mesmo na escuridão mais funda.

Bruna, minha melhor amiga, minha confidente de risos e desventuras, sempre soube, antes mesmo de eu perceber, quando o chão virava abismo. Te devo tanto, e mesmo assim me afastei, porque temia que tu visse minha carne destruída, meus ossos partidos. Eu, que fazia piada do mundo, não suportei o peso de meu próprio silêncio. Só espero que tu saibas, com toda a força do teu carinho, que foi tua luz que me manteve vivo quando minha essência virou cinza, quando eu já não parecia estar aqui.

Antônio e Thomas, meus filhos, minha essência mais pura, meu reflexo de esperança.
Vocês representam a promessa de que a vida continua, mesmo quando tudo parece não fazer sentido. Nos olhos de vocês existe a certeza de que o amanhã ainda pode nascer, mesmo na mais dura das noites. Pergunto-me o que irão guardar de mim: se os risos nas manhãs de cosquinhas ou o cansaço silencioso dos dias e noites em que trabalhei. Que lembrem as primeiras, as que tentei brindar com amor, mesmo que o mundo estivesse em ruínas. Cada gesto de carinho, mesmo desajeitado, foi minha tentativa desesperada de dizer “eu te amo”, do jeito que pude. Eu amo vocês, meus meninos.

Mãe, mulher que segurou o mundo enquanto me ensinava a caminhar. Tu me deste força, coragem, fé e eu, teimoso, confundi tudo. Julguei tua força como silêncio, tua coragem como rigidez, tua fé como autossuficiência. Hoje, vejo que teu amor me pedía para parar, respirar, viver na paz do lar não na guerra constante. Perdão por demorar tanto a entender o óbvio: a vida não é uma batalha para ser vencida, mas um lar que a gente precisa aprender a habitar.

Se algum dia falarem de mim, que digam que tentei, com toda a força que me restava.
Que, mesmo derrotado, lutei até o último suspiro.

— Luti


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