Eu mal consigo me apegar à vida,
quem dirá às amizades.
Ando colecionando cicatrizes
como quem junta provas de passagem.
Tem dia que acordo inteiro,
mas metade de mim já pede trégua.
A outra metade finge que entende
essa farsa chamada entrega.
O tempo me mastiga devagar,
com os dentes sujos de rotina.
E eu continuo, ranzinza, lúcido,
tentando achar sentido na ruína.
As pessoas falam em “recomeço”,
como se a mente tivesse botão de reset.
Eu rio seco,
porque sei que o inferno é cíclico
e o consolo, malcriado.
Não é sobre amor,
já passei dessa fase messiânica.
Hoje é mais sobre silêncio:
esse tipo de paz que fede a desistência,
mas ainda respira.
Eu me visto de ironia
pra não ter que usar esperança.
A esperança é cara demais,
e eu tô falido de ilusões.
Ainda tento não cuspir no espelho,
embora ele mereça.
A cada manhã,
pago caro pra continuar.
E o troco vem em desgaste.
No fim, é isso:
um punhado de lucidez indigesta,
umas verdades que arranham o dente,
e a certeza de que continuar
é o ato mais punk que existe.
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