segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Nostos

 Eu mal consigo me apegar à vida,

quem dirá às amizades.

Ando colecionando cicatrizes

como quem junta provas de passagem.


Tem dia que acordo inteiro,

mas metade de mim já pede trégua.

A outra metade finge que entende

essa farsa chamada entrega.


O tempo me mastiga devagar,

com os dentes sujos de rotina.

E eu continuo, ranzinza, lúcido,

tentando achar sentido na ruína.


As pessoas falam em “recomeço”,

como se a mente tivesse botão de reset.

Eu rio seco,

porque sei que o inferno é cíclico

e o consolo, malcriado.


Não é sobre amor,

já passei dessa fase messiânica.

Hoje é mais sobre silêncio:

esse tipo de paz que fede a desistência,

mas ainda respira.


Eu me visto de ironia

pra não ter que usar esperança.

A esperança é cara demais,

e eu tô falido de ilusões.


Ainda tento não cuspir no espelho,

embora ele mereça.

A cada manhã,

pago caro pra continuar.

E o troco vem em desgaste.


No fim, é isso:

um punhado de lucidez indigesta,

umas verdades que arranham o dente,

e a certeza de que continuar

é o ato mais punk que existe.

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